Copa do Mundo 2026: Proximidade e Inacessibilidade para os Brasileiros nos EUA
Por Anna Olimpia de Moura Leite, diretora da LCA Consultoria Econômica e doutoranda na The New School, em Nova York, e Sean Jacobs, professor de relações internacionais na The New School.
A Copa Está perto, Mas Ingressos estão Longe
A Copa do Mundo de 2026 promete ser diferente, e não só por ser realizada nos Estados Unidos, onde vivem milhões de brasileiros e outros amantes do futebol. Para os imigrantes brasileiros, a piada é amarga: a Copa nunca esteve tão perto e, ao mesmo tempo, tão inacessível.
Desde que a Fifa começou a vender os ingressos, as mensagens nos grupos do WhatsApp inundam o espaço virtual. Os amigos brasileiros estão em êxtase e desespero ao tentar garantir um único ingresso, e as reclamações são sempre as mesmas. Afinal, quem nunca passou horas na fila virtual da Fifa, sem conseguir garantir sua entrada?
Ingressos nas Nuvens: O Que Fazer?
E se você está pensando que o mercado de revenda é a solução, melhor segurar a respiração! O ingresso mais barato para a final já pode custar a partir de US$4 mil (R$20 mil) na plataforma oficial de revenda da Fifa. Isso é sete vezes o preço do ingresso mais barato da final de 2022, no Qatar. Para se ter uma ideia, na Eurocopa 2024, você encontrava entradas a partir de US$100 (R$500). E o que dizer da média de preços projetada pela própria Fifa? Ela é de US$1,4 mil (R$7 mil), já superada por esses ingressos nas plataformas.
Torcedores da Europa não estão sozinhos nesse sentimento. A Football Supporters Europe, a principal rede de fãs por lá, se uniu à Euroconsumers para fazer uma queixa formal à Comissão Europeia contra a Fifa. Eles alegam que a entidade abusa de sua posição dominante com preços esdrúxulos e regras de comercialização que mais parecem um labirinto.
Copa do Mundo e o Acesso ao Torcedor Local
Em Copas passadas, houve um esforço para incluir os torcedores locais. Por exemplo:
- Na África do Sul (2010), cerca de 15% dos ingressos eram da "Categoria 4" — com preços a partir de US$20 (R$150) para residentes.
- No Brasil (2014), foram oferecidos 400 mil ingressos a partir de US$30 (R$210), com descontos de 50% para estudantes e idosos.
Já no Qatar, a Fifa abandonou essa categorização, mas ainda ofereceu preços diferenciados para residentes.
A Revolução da Precificação Dinâmica
O que está acontecendo em 2026 é algo totalmente novo: a introdução da precificação dinâmica pela Fifa. Isso significa que os preços dos ingressos mudam conforme a oferta e a demanda, um modelo que já conhecemos bem de companhias aéreas e hotéis. Na prática, após cada rodada de vendas, a Fifa analisa a demanda e determina um novo preço mínimo, que é sempre mais alto.
Agora, aqui está a parte complicada: a Fifa é quem controla tanto a oferta quanto o preço. Quando um único jogador domina o jogo, a coisa se complica. Como resultado, a escassez dos ingressos — real ou percebida — altera a disposição dos torcedores de pagar mais. Alguém que pagaria US$200 (R$1 mil) pode acabar disposto a desembolsar até US$1 mil (R$5 mil) se os ingressos parecerem estar acabando.
Um Mercado de Revenda Problemático
E não vamos esquecer do mercado de revenda, onde a própria plataforma da Fifa cobra taxas de 15% de todos os lados — tanto de quem compra quanto de quem vende. Ou seja, a Fifa se beneficia de cada transação secundária. Isso pode parecer estratégia de mercado, mas também levanta preocupações sobre os incentivos perversos que surgem, onde um mercado inflacionado é bastante rentável para quem está por trás das vendas.
Alternativas Para um Acesso Democrático
E aí, o que fazer? Existem várias sugestões sendo discutidas:
- Transformar os ingressos em intransferíveis, como passagens aéreas, para enfraquecer o mercado de revenda.
- Reservar uma porcentagem considerável de ingressos para residentes a preços acessíveis, proibindo a revenda.
- Criar um modelo que combine sorteios, recompensas para torcedores fiéis e ingressos com desconto para aqueles que contribuírem com o futebol juvenil ou clubes femininos.
Mas para que essas ideias se transformem em realidade, a pressão política é essencial. As associações de futebol, reelegeram o presidente Gianni Infantino e não são uma pressão realista. O caminho mais provável para mudar essa história vem das autoridades públicas dos países anfitriões. Surpreendentemente, pessoas como Donald Trump têm dado voz a críticas sobre os preços altos dos ingressos, mesmo que isso possa parecer um pouco tardio.
Movimento nas Ruas e Nas Redes
Em meio a tudo isso, surge uma figura carismática: o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Ele é um verdadeiro fã de futebol e, durante sua campanha, defendeu medidas que exigirem mudanças na Fifa, como o fim da precificação dinâmica e a reserva de 15% dos ingressos para residentes locais.
Embora sua ação seja modesta, ela redefine um pouco a narrativa. Enquanto a Fifa exclusiviza a entrada dos torcedores nos estádios, Mamdani reintegra o jogo nas ruas e nos corações dos fãs.
Contudo, a realidade é dura: “o esporte mais popular do mundo agora é acessível aos torcedores comuns apenas como uma festa de rua". Isso é triste, especialmente quando os verdadeiros fãs acabam excluídos por não conseguirem pagar para entrar.
Entre as conversas nos grupos de WhatsApp e trocas entre brasileiros nos EUA, vem uma nova percepção: sem a Categoria 4, descontos ou uma diversificação nos modelos de ingressos, o acesso ao mercado se torna mais elitizado. Para muitos, a bilheteria da Fifa se torna um exemplo claro do que um mercado falho e sem regulamentação pode fazer, afastando aqueles que realmente dão vida e significado à Copa do Mundo.
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Fonte: uol.com.br